Tarifaço em vigor: como a medida afeta o agro do Brasil

Tarifaço em vigor como a medida afeta o agro do Brasil

Em um primeiro momento, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima a redução de US$ 5,8 bilhões por ano no valor arrecadado

Depois de Canadá, China, Hong Kong e México, os primeiros países que Donald Trump impôs tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos, o Brasil também foi incluído na lista e passa a ser taxado em 50% a partir de hoje, 6 de agosto.

Inicialmente, a tarifa entraria em vigor na sexta-feira (1/8), mas, ao assinar a ordem executiva para implementar a cobrança adicional de 40% sobre as mercadorias brasileiras, somado aos 10% já aplicados desde abril, o presidente americano postergou o tarifaço em cinco dias.

Entre todos os setores da economia, o agro é um dos mais preocupados, porque a tarifa irá afetar diretamente as negociações de exportação. Em um primeiro momento, a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) estima a redução de US$ 5,8 bilhões por ano no valor arrecadado.

O prejuízo elevado tem uma explicação: os EUA são o segundo maior destino das mercadorias do país, com 9,43 milhões de toneladas enviadas em 2024 e receita de 12,09 bilhões, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Mas o que é o tarifaço e como ele pode afetar o agronegócio brasileiro? Entenda essas e outras dúvidas abaixo:

O que é o tarifaço?

O termo informal é usado para descrever o conjunto de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos importados de diversos países pelo mundo.

No caso do Brasil, por exemplo, a taxa cobrada será de 50%, a maior até o momento entre quem já foi notificado por Donald Trump desde que o presidente retornou à Casa Branca para o segundo mandato. O valor totaliza os 10% aplicados desde o mês de abril sobre os bens importados, mais 40% implementados agora.

Outras nações também se tornaram alvo, como África do Sul (30%), Bangladesh (35%), Coreia do Sul (25%), Filipinas (20%), Indonésia (32%), Japão (25%), Laos (40%), Myanmar (40%), Sérvia (35%), Tailândia (36%), etc.

Por que os EUA aplicaram o tarifaço ao Brasil?

No comunicado feito pela Casa Branca que confirmou a adição de mais 40% nas tarifas, Trump explicou que a sobretaxa visa “proteger a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos contra uma ameaça estrangeira”.

Em resumo, são três os principais motivos: censura a empresas americanas no território brasileiro, perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro e preocupação com a liberdade de expressão.

“A Ordem declara uma nova emergência nacional usando a autoridade do Presidente sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 (IEEPA) e estabelece uma tarifa adicional de 40% para enfrentar as políticas e ações incomuns e extraordinárias do Governo do Brasil que prejudicam empresas americanas, os direitos de liberdade de expressão de cidadãos americanos, a política externa dos EUA e a economia americana”, diz o documento.

O tarifaço afeta o agro do Brasil?

Sim. Como os EUA são o segundo maior importador de produtos brasileiros, atrás apenas da China, o tarifaço promete impactar muitas negociações e diminuir consideravelmente os valores recebidos pelos mesmos exportadores até o momento.

No ano passado, conforme dados do Mapa, a receita contabilizada com o envio de 9,43 milhões de toneladas de mercadorias superou US$ 12 bilhões. E, segundo a estimativa da CNA, a redução no primeiro ano pode chegar a US$ 5,8 bilhões, ou seja, quase 50%.

Desde 9 de julho, quando Donald Trump anunciou a sobretaxa ao Brasil, empresas brasileiras já contabilizaram prejuízos. Um deles envolve a manga cultivada no Vale do São Francisco, na divisa entre Pernambuco e Bahia. Produtores locais da fruta, líder entre as variedades enviadas aos EUA, paralisaram as negociações de embarque previstas para agosto e que poderiam render mais de US$ 50 milhões.

Em outro caso, a empresa americana Netuno, maior compradora de pargo brasileiro, suspendeu as negociações para importar pescado até a resolução do impasse sobre a tarifa depois de comprar quase 2,5 mil toneladas do item apenas no primeiro semestre de 2025.

Quais produtos do agro o Brasil mais exporta aos EUA?

A tarifa de 50% sobre mercadorias brasileiras pelo governo de Donald Trump terá efeitos negativos em importantes segmentos do agronegócio. Os EUA são os maiores compradores de café, o segundo maior importador de carne bovina e um cliente relevante de açúcar. E todos os três serão taxados com o valor máximo.

A lista de produtos enviados ao país americano, no entanto, é bem mais extensa e inclui ainda sucos, frutas, cacau, fumo, cereais, mel e soja, por exemplo. Os itens florestais lideraram o ranking em 2024 com US$ 3,7 bilhões de receita e 30% de participação no total comercializado. Confira abaixo:

  • Produtos florestais – US$ 3,7 bilhões
  • Café – US$ 2 bilhões
  • Carnes – US$ 1,4 bilhões
  • Sucos – US$ 1,1 bilhão
  • Complexo sucroalcooleiro – US$ 791 milhões
  • Demais produtos de origem animal – US$ 725 milhões
  • Demais produtos de origem vegetal – US$ 396 milhões
  • Couros, produtos de couro e peleteria – US$ 328 milhões
  • Fumo e seus produtos – US$ 328 milhões
  • Pescados – US$ 255 milhões
  • Produtos alimentícios diversos – US$ 211 milhões
  • Frutas (inclui nozes e castanhas) – US$ 174 milhões
  • Cereais, farinhas e preparações – US$ 107 mihões
  • Cacau e seus produtos – US$ 83 milhões
  • Produtos apícolas – US$ 78 milhões
  • Produtos oleaginosos (sem soja) – US$ 58,8 milhões
  • Complexo soja – US$ 58,2 milhões
  • Chá, mate e especiarias – US$ 52 milhões
  • Hortaliças – US$ 44 milhões
  • Fibras e produtos têxteis – US$ 27 milhões
  • Bebidas – US$ 24 milhões
  • Lácteos – US$ 15 milhões
  • Rações para animais – US$ 13 milhões
  • Animais vivos (exceto pescados) – US$ 5 milhões
  • Plantas vivas e produtos de floricultura – US$ 3 milhões

 

Todos os produtos brasileiros serão taxados?

Não. Na última quarta-feira (30/7), os EUA reduziram o alcance do tarifaço no Brasil com a assinatura da carta executiva divulgada pela Casa Branca, e quase 700 produtos não serão taxados em 50%. Um deles é o suco de laranja, contemplado na lista de exceções. Por outro lado, o café e a carne bovina seguem ameaçados.

Como o Brasil é o principal fornecedor de suco de laranja aos EUA, com 70% de tudo que importam para consumo, as indústrias receberam com alívio a informação de que a commodity continuará pagando apenas 10% de taxa. Mas, ao mesmo tempo em que a notícia é positiva, é acompanhada de responsabilidade.

“O setor entende que tem compromisso de continuar atendendo o mercado americano como faz há 60 anos. O consumo por lá também caiu bastante nesse período, mas não de uma maneira tão acentuada como a produção. Então, essa diferença entre o que eles produzem e o que consomem acabou aumentando a necessidade de importação de suco”, destaca Ibiapaba Netto, diretor-presidente da CitrusBR.

Além do suco de laranja, outros produtos agrícolas também não serão taxados em 50%. Veja abaixo;

  • Polpa de laranja;
  • Suco de laranja congelado;
  • Suco de laranja não congelado;
  • Castanha (com casca, fresca ou seca);
  • Madeira tropical, nesoi, serrada ou lascada longitudinalmente, cortada em fatias ou desenroladas, mesmo aplainada, lixada ou unida pelas extremidades, de espessura superior a 6 milímetros;
  • Polpa química de madeira;
  • Fertilizantes minerais ou químicos contendo os três elementos fertilizantes nitrogênio, fósforo e potássio;
  • Fertilizantes minerais ou químicos contendo os dois elementos fertilizantes fósforo e potássio;
  • Artigos de polpa de papel;
  • Artigos de pasta de celulose;
  • Artigos de borracha.

Como será a aplicação do tarifaço?

A partir de 6 de agosto, todos os produtos importados pelos Estados Unidos – exceto aqueles da lista de contemplados – serão taxados em mais 40%, totalizando 50% com a tarifa já aplicada desde o mês de abril.

O tarifaço só não será válido para as mercadorias que saírem dos portos brasileiros antes da meia-noite de 6 de agosto e estiverem em direção ao país americano. Porém, mesmo beneficiadas pela regra, elas podem ser alvo caso não tenham sido disponibilizadas para consumo até 5 de outubro.

Fonte: Globo Rural.

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